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segunda-feira, 24 de março de 2025

«de São Marçal à Rua da Cruz dos Poiais»; João Paulo Esteves da Silva

  - [mais um poema, de obra recente, possível de ser incluído na Colecção Cesárias XXI...]

ATÉ SANTOS O VELHO

Vou descendo a Rua de São Marçal
mirando a solidão, ouvindo os passos dados
e os chilreios, longe, atrás de muros de palácios.
Só ao cruzar a Praça das Flores me chega o burburinho
dos muitos cafés, dos restaurantes, das esplanadas.
Não paro, continuo a descer e os prédios empobrecem,
alguns bêbados encolhem-se nas soleiras, agora a Rua
da Cruz dos Poiais leva-me até ao campo do exílio precoce.
Cruzo a linha do eléctrico, a perceber cada vez menos
o porquê dessa minha levada, menino e moço, para aqui,
onde vivi de bolos e angústia em forma de piano.
Por estes becos despovoados, à espera de turistas,
terei feito recados, idas e voltas à mercearia,
em busca de figos secos (pretos, num cartuxo de papel pardo),
maços de cigarros para o avô, ramos de louro ou salsa.
Se me chegasse agora algum cheiro a alho frito,
talvez chorasse e percebesse e sarasse, enfim,
mas já ninguém faz o jantar nestes rés-do-chão.

01/11/2020
                           João Paulo Esteves da Silva, Ascendentes.   2025, p. 34

sábado, 8 de junho de 2024

«A cidade e o monte» + «The Fantastic world of the Portuguese Sardine.

 - Variação de Tema(s) de Cesário (+ citações de O'Neill e Cardoso Pires, por ex.o), para «O tempo de aqui-agora», em Crónica de A. C. Leonardo, no Íps
 
RECORTE(s):
[...] Chegada ao terceiro parágrafo, torna-se irresistível citar Bernardo Soares: “O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão”.
    Atrás de mim está agora o rio. Atravesso a rua – suja –, ziguezagueio entre tuk-tuks – alguns enfeitados por grinaldas de flores de plástico de cair bizarramente havaiano –, desvio-me de um casal asiático, obedeço à geometria do ângulo que delimita o passeio largo e ainda mal-acostumada à nova carburação urbana, passada a esquina, esbarro no Fantastic world of the Portuguese Sardine.
     A calçada encardida, o lixo que esvoaça ao vento. Obras! Pó! Arquitectura sem história e sem alma a crescer em crateras onde antes viviam alfacinhas, uns mortos, outros empurrados para os subúrbios. Entre os prédios, ajardinados desenhados à esquadria – cartesiana, naturalmente – nos quais as árvores, quando as há, não dão sombra [...]
     Regresso ao monte. Confirmo que a combinação de tempo e espaço é o luxo sem preço dos nossos dias. Sorrio ao lembrar-me da frase do irreverente arquitecto Manuel Vicente, “O campo é o sítio onde eu páro para mijar entre duas cidades”, e, por instantes, até a inexistência de jornais e camionetas no concelho perdoo aos da Câmara.


sexta-feira, 24 de março de 2023

Chiado («nata district»? OU «posso orar para si?» + dez lojas de Natas por rua...

Chuviscoso Chiado 
- [antes, no CORR. FNC, alcançada a p. 112 da BIOG. de Natália (de F. M.); num dos cantos, sempre com o livro de harrry ao lado, «empestando» o ambiente, ressonava o «leitor» do costume...]
- surgem «aos pares», tendo como Testemunha a Estátua Pessoana, tentando «evangelizar» algum Tuga, por entre as «chusmas turísticas» e as «chusmas escolares» em V.as de Estudo...; morenos, jovens, «missionários» à Civil, com Opúsculos na Mão...:
- Posso orar para (por) si (Ocê)?»
- [de esguelha, fintando o «frente a frente»]: «Não, já estou condenado desde que nasci; não tenho  Salvação...
- Tudo bem, respeitamos na mesma...


A empresária soube há meses que o contrato da loja na Rua Anchieta não ia ser renovado — já está à procura de outro espaço na zona do Chiado

- a 24-12-2023, C. Portas, por «fecho antecipado», no «P2»: «Precisamos mesmo de dez lojas de pastéis de nata na mesma rua?»