Recortes:
QUE HORAS SÃO AÍ?
Lisboa
continua a ser uma cidade literária. Isto é, uma cidade que não coincide
necessariamente com a sua geografia visível. Uma cidade que é maior do que
aquela que a cartografia designa. O trabalho de um escritor não é só uma
operação de desmontagem do tempo: ele faz o mesmo em relação ao espaço. Em parte
a cidade, tal qual historicamente se apresenta, pode ser reconhecível no que
escrevem. Há a Lisboa de Cesário Verde e de Pessoa, de Saramago, Cesariny, Lobo
Antunes ou [...]
Sei
que muitos italianos vêm a Lisboa trazendo na bagagem o romance “Afirma
Pereira”, de Antonio Tabucchi. E que vão tomar café ao Orquídea seguindo os
passos do protagonista ou se metem no 28 para verem como Lisboa é lentamente
metafísica e cansada ou são mais benévolos a julgar a ventania do entardecer do
que alguma vez os locais o serão. [...]
A
este propósito, Lisboa tem uma grande dívida para com Tabucchi, [...] Num conto inédito, que acaba de ser editado em Itália, e que se
intitula “Que Horas São Aí?”, é essa exatamente a intriga. Lojas que deixaram
de existir e foram substituídas por outras, lacunas, distâncias e dobras que o
tempo acentua, enigmas deixados em herança, ruas e sofrimentos que os mapas não
assinalam. Face a isso, a tarefa da literatura é dupla: por um lado, tornar
consciente em nós o impacto avassalador da vida, mas, por outro, tentar uma
espécie de reparação. Que Tabucchi explica assim: a história é uma criatura
glacial, não tem piedade de nada nem de ninguém. Mas a literatura existe para
dar uma hipótese à piedade e para que a versão dos vencidos possa ser escutada.
«Expresso», n.º 2511, «E»
– [Revista], 11 - 12 - 2020, p. 90